Um ato de amor

16/11/2012 09:00

Apesar de ser um caminho cheio de pedras, gesto de adotar é recompensador.

Impossibilidade de ter filhos biológicos e desejo de ajudar crianças abandonadas são alguns dos motivos que levam um casal a optar pela adoção. No entanto, nem tudo é um mar de rosas. A demora, a insegurança, o preconceito e a burocracia são espinhos que ousam desanimar quem luta por esse sonho. Segundo o site Direitos da Criança, dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) revelam que, de 2008 a 2011, mais de 500 crianças foram adotadas pelo Cadastro Nacional de Adoção (CNA). No entanto, existem procedimentos realizados pelos tribunais que não integram o cadastro, fazendo com que o número seja bem maior.

Ainda de acordo com o site, em 2011 o cadastro continha 4.685 crianças e adolescentes e 27.052 interessados em adotá-los. No entanto, apenas 8.834 dos pretendentes aceitam adotar uma criança negra, enquanto 24.659 declararam aceitar crianças brancas. Os pretendentes indiferentes à raça são 8.754. Entre as crianças candidatas, apenas 1.616 são brancas. A idade também é outro fator que influencia. Entre os cadastrados, 22.451 querem adotar bebês com até um ano de idade e apenas 4.851 pessoas se habilitam a adotar irmãos.

Presente de Deus

Tudo começou em uma conversa com a médica. “Em uma das consultas, ela sugeriu que fizéssemos inseminação com material genético de um doador. Na ocasião, isso me incomodou bastante e senti meu coração fechando”, conta Érica Oliveira, mãe adotiva de duas crianças. A escolha pela adoção aconteceu em 2010. “Foi uma decisão tranquila e cheia de expectativas. Uma criança estava a caminho e não sabíamos quando ela chegaria”, lembra.

Érica conta que, a princípio, o desejo era ter um bebê. Depois de enviar toda a documentação e começar a participar das reuniões no Fórum, o casal foi mudando de ideia. “Nosso perfil não era muito diferente do perfil das demais pessoas. Muitos veem a adoção como a realização de um sonho e idealizam seus filhos, muitas vezes escolhendo

cor e idade, excluindo os demais”, ressalta. Ao prencher o formulário, Érica conta que o casal optou por não restringir o perfil dos futuros filhos, tampouco a possibilidade de ter irmãos.

A notícia de que eles foram os escolhidos para adotar Priscila e Gabriel foi recebida por meio de uma ligação da assistente social. “Eu estava trabalhando e fiquei muito emocionada e nervosa. Não entendia nada do que ela dizia, mas lembro que ela falava muito da menina e pouco do menino. Gabriel é um nome bíblico e quer dizer ‘enviado por Deus’. Como eu estava orando pela causa, senti que era uma resposta”, recorda.

Ao chegar em casa, Érica contou a novidade para o marido e pediu para ele entrar em contato com a assistente social a fim de obter mais informações sobre as crianças e sobre um possível problema que uma delas apresentava. Eles conheceram as crianças em uma segunda-feira, no abrigo Casa das Meninas. Quando foram abandonadas pela mãe, Gabriel e Priscila tinham, respectivamente, cinco meses e três anos de idade.

O primeiro contato foi com a Priscila. “Ela estava cheia de feridas por todo o corpo. Não tinha como dar as mãos nem calçar sapatos. Eu fiquei com muita pena e, a princípio, um pouco assustada. Quando Gabriel chegou, notei que ele também tinha micose no rosto e estava todo manchado. Ficamos comovidos e com o coração disposto a amar e cuidar deles”, relata.

Érica e seu marido obtiveram todas as informações sobre as crianças e, de imediato, decidiram ficar com elas. “Já sentíamos que eles eram nossos e começamos a fazer planos, procurar advogado. Deus abençoou tanto que, em menos de 15 dias, as crianças estavam lá em casa”, conta. Os exames realizados não acusaram problemas de saúde em Priscila e Gabriel.

Érica conta que houve diferença no tratamento das pessoas da família de seu esposo em relação às crianças. “Até hoje eles nunca ligaram para saber das crianças. Com o tempo, fomos diminuindo as nossas idas às casas dessas pessoas. Para nós, eles são nossos filhos, independente de qualquer coisa”, desabafa. Por outro lado, sua mãe e seus irmãos não os tratam de forma diferenciada e os consideram como parentes de sangue.

“Muitas pessoas veem a adoção de um lado totalmente errado. Muitos falam que as crianças deram sorte de encontrar pais como nós. Para essas pessoas, eu digo que nós é que tivemos muita sorte de encontrar crianças tão especiais e únicas como Priscila e Gabriel. Como sorte não existe, acredito que eles foram separados para nós”, completa.

Abrigos

Quando uma criança é abandonada ou retirada da família por motivos diversos, ela é encaminhada a um abrigo para menores, onde aguardará uma decisão do Conselho Tutelar. O tempo de permanência no abrigo pode variar de acordo com cada caso. Quando há possibilidade de conciliação familiar, é feito um acompanhamento do Conselho Tutelar junto aos familiares. A criança só é liberada para adoção quando se esgotam todas as chances de retorno para a família. Os menores também são acompanhados por um psicólogo, visando amenizar as consequências de prováveis traumas (já que na maioria deles incide maus tratos e abuso) e prepará-los para o futuro fora do abrigo.

Kátia Araújo, 32 anos, trabalhou durante quatro meses em um abrigo para menores em Divinópolis e acompanhou de perto o processo de adoção do ponto de vista das crianças. Para ela, a adoção é uma ótima oportunidade para casais estéreis realizarem o sonho da paternidade e para crianças abandonadas adquirirem um lar e uma família. “Eles são avisados que sairão do abrigo somente no dia, pois ficam muito ansiosas. O adiamento pode decepcionar muito. Já houve caso da criança adoecer”, revela.

Para as psicólogas Juliana Marçal e Elaine Azevedo, a adoção nem sempre é uma boa alternativa para casais estéreis. De acordo com elas, os casais que pretendem adotar são acompanhados por diversos profissionais que os orientam em sua escolha. “A partir do suporte psicológico que faz parte deste processo, [o casal] poderá ser auxiliado a descobrir se esta é a melhor opção em seu caso”, destacam. Contar para a criança que ela é adotiva não é tarefa fácil. Segundo as psicólogas, não existe um "momento certo" pré-estabelecido para isso. “Cada casal ou família definirá o melhor momento para isso, podendo contar com suporte psicológico para lidar melhor com tal questão. No processo de adoção os pais são orientados de que a criança tem o direito de saber sobre sua origem”, completam.

Tempo de espera

Quando não é necessário passar pela fila de adoção, o processo é um pouco mais fácil. Esse foi o caso de Simão Freitas, 50 anos, e sua esposa, Maria de Lourdes Freitas, 41 anos. A mãe biológica já estava destinada a doar a filha três meses antes de ela nascer. “A maior dificuldade é ter que arrumar um advogado para organizar os papéis. A mãe tem que assinar aprovando a adoção. É um processo demorado, é lento. Nosso advogado disse que não tem como sair rápido”, lembra Simão.

Enquanto o processo não chega ao fim, ansiedade foi o sentimento que dominou o casal. “Nesse período de espera a gente ficou com medo de a mãe vir buscar a criança, porque a gente sabia do direito dela. A corda arrebenta sempre para o lado mais fraco. Agora já está tudo legalizado, tudo arrumado, não tem problema, não precisamos ter medo”, conta.

Segundo o advogado Geraldo Lúcio, quando a mãe biológica muda de ideia, caracteriza-se uma situação controversa. “Ela pode desistir, mas antes a lei diz que ela tem que fazer uma declaração de próprio punho”, destaca. O advogado diz que, nesses casos, o envolvimento do Ministério Público e da Assistência Social vai pesar muito para que a mãe da criança perca ou não o pátrio poder, conjunto de responsabilidades e direitos que envolvem a relação entre pais e filhos até que estes completem 18 anos.

Quanto à demora do processo, Geraldo diz que o interesse dos envolvidos pode acelerar ou não a conclusão de uma adoção. “Quando o órgão ou a pessoa que vai diligenciar se preocupa, tem interesse, e o próprio advogado também se interessa pela causa, o processo anda mais rápido”, explica. O advogado também destaca que a adoção não segue uma regra. “Não tem uma forma, não segue um procedimento. Cada caso é um caso”, ressalta.

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Reportagem produzida pelos alunos do curso de Jornalismo da Faculdade Pitágoras Divinópolis/MG: Ana Maria Campos, Amanda Silva, Marcia Vani, Mariana Moreira e Tatiana Santos (3º Período)

Fotos: Tatiana Santos e Mariana Moreira (3º Período)

Supervisão e edição: Prof. Ricardo Nogueira (MG 11.295 JP)

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