Simplicidade que move o mundo

30/07/2012 09:03

 

Trabalhadores com profissões mais simples ajudam a manter o funcionamento da sociedade

Nas madrugadas divinopolitanas, motoristas e trocadores despertam muito cedo para mais um dia de trabalho. São estas as pessoas responsáveis por conduzir trabalhadores de todas as funções: vendedores, vigilantes, professores, funcionários da limpeza, entre outros, que dependem do transporte público para chegar aos locais desejados. Para estar às 4h30 na empresa de ônibus Trancid (no bairro Manoel Valinhas), a maioria desses profissionais do transporte urbano tem de enfrentar os grandes riscos da cidade, por causa da vulnerabilidade da violência em Divinópolis. Alguns fazem o trajeto de casa ao trabalho a pé; outros de veículo próprio ou aguardam a linha de ônibus do seu bairro.


O motorista Divino Modesto acorda às 3h20 para começar o seu ofício de transportar
as pessoas que 
precisam do transporte público em Divinópolis
Crédito: Gleudson Sanches

É na força bruta de um grande veículo que o motorista Divino Modesto leva seus passageiros ao destino almejado, pelas linhas Manoel Valinhas/São Miguel, São Miguel/Manoel Valinhas. Esse percurso é feito na companhia de Jussara Aparecida Vaz, responsável pelo controle da parte financeira do itinerário, na função de trocadora. Divino desperta às 3h20 e faz um trajeto de trinta minutos a pé do bairro São Luiz ao Manoel Valinhas. Já Jussara desperta às 4h20 e organiza-se para esperar o ônibus das 5h. Ela gasta cerca de 10 minutos para ir de sua casa, no bairro Danilo Passos 2, ao Manoel Valinhas, seu posto de trabalho. Os companheiros de trabalho precisam estar na empresa de transporte antes de iniciarem-se seus expedientes, às 5h30, primeiro horário da linha Manoel Valinhas/São Miguel.

Esses profissionais fazem uma rota de nove quilômetros, em 40 minutos de viagem, com cerca de 280 passageiros em cada trajeto, nos dias úteis da semana. Nos fins de semana, o número de passageiros varia entre 70 e 90. A escala de trabalho para esses profissionais é de sete horas e 20 minutos. Não há um tempo específico para o intervalo de almoço, pois isso varia muito de linha. Em algumas, por exemplo, cujos trabalhadores fazem um trajeto de uma

hora, uma hora e trinta, eles costumam ter um tempo entre dez a quinze minutos ou até menos.

Divino relembra uma situação que o marcou no trabalho. “Em 2005 lembro-me de um acidente de moto que ocorreu com uma moça que estava no chão aguardando o resgate. Aquilo me marcou muito. Hoje eu sei que ela está bem, mas não me esqueço do ocorrido”, disse. Mesmo depois desse acidente, o trânsito de Divinópolis não mudou muito. “Fico muito cansado com o trânsito daqui, é uma bagunça. Tem tanta gente com pressa que entra em nossa frente, não têm respeito com os outros condutores e nem responsabilidade”, afirma o motorista.

Os profissionais estão sujeitos a viver todo tipo de situações: alegres, tristes e constrangedoras. Alguns colegas de profissão não possuem local para fazer suas necessidades fisiológicas durante o trabalho e as mulheres estão sujeitas ao ridículo por não terem uma privacidade respeitada. Outros são questionados e responsabilizados por mudanças de rota, muitas vezes forçadas pelas obras, eventos e acidentes. Para se ter uma idéia, em 2002 havia fiscais de coletivo, profissionais responsáveis por orientar os passageiros sobre eventuais mudanças. Hoje isso não existe mais.

Mas não são só momentos difíceis que compõem as suas histórias. A boa interação entre os colegas de profissão ajuda na hora de trocar experiências, discutir alguns problemas e recuperar forças para outra nova jornada. Jussara se diz muito alegre com a profissão. “Muitas pessoas são educadas, felizes, contam causos, piadas, nos ensinam a verdadeira simplicidade da vida, o que compensa os momentos de estresse”, complementa.

Em busca de uma chance

Muitas são as chances e oportunidades que aparecem nas vidas das pessoas, a quem cabe escolher quais as melhores e buscar mais conhecimento. Mas, para uma grande parte delas, não há alternativa. Na vida profissional, cada um tem a sua história de força e luta. Com o disputado mercado atual, não basta o trabalhador ser apenas bom, é preciso buscar cada vez mais aperfeiçoamento e qualificação, pois, contentar-se com o que se tem é um risco muito grande.

Algumas pessoas desempenham diariamente sua função na sociedade sem serem percebidas e até sendo menosprezadas. No entanto, a imagem que se vê não é tudo. Quem afirma isso é o porteiro José Nivaldo, de 54 anos. Ele trabalha há 11 anos na mesma função e, como complemento da renda, trabalha na produção de EPIs (Equipamentos para Segurança) para sustentar a filha e esposa, pois seu salário da função principal é insuficiente para cobrir as despesas da família.

No Brasil, o salário mínimo atual é de R$ 622,00. É sabido que o valor não cobre as despesas de brasileiros que anseiam em alcançar seus sonhos, comprando eletrodomésticos, automóveis e até casas, o que leva grande parte da população a se arriscar e fazer dívidas intermináveis com prestações e juros muito altos. Comparado a outros países, o salário mínino do Brasil está muito baixo. Para Nivaldo, que discorda do valor atual, o trabalhador deveria ser mais valorizado.

Além deste fato que atordoa a quem depende desta remuneração para viver, há ainda outro fator agravante para quem trabalha em empregos mais simples e que já sofreu, e muito, por uma visão distorcida de uma minoria da sociedade. Durante muito tempo, as pessoas que exercem tais profissões foram vistas como pessoas sem classe e desprovidas de respeito. Em pleno século XXI, há ainda quem os enxergue da mesma maneira. Apesar disto, são estas pessoas que carregam parte do futuro de nosso país e, com o suor do rosto, lutam por dignidade e um mundo melhor. Em comum, elas acordam muito cedo, têm uma rotina exaustiva, são mal remuneradas e, geralmente, possuem família para sustentar.

Qualificação

O emprego define o caráter de uma pessoa? Por estarem trabalhando em empregos como estes, são inferiores a outras pessoas que trabalham em lugares privilegiados da sociedade? Para Nivaldo, todo emprego é importante e

as pessoas precisam valorizar seu serviço perante a sociedade. Um servente ou gari têm o seu valor. A diferença entre um gari e um empresário é apenas o estudo, para o porteiro. Isso, segundo ele, faz diferença.

A qualificação profissional é um fator muito importante para aumentar as chances de uma oportunidade de emprego melhor. Ter, no mínimo, o Ensino Médio completo e conhecimento em informática pode ser colocado como uma obrigatoriedade. Há ainda aqueles profissionais de recrutamento e seleção que já anunciam a necessidade do postulante a uma vaga de emprego possuir curso superior completo ou em andamento, a fluência em uma língua estrangeira e o domínio da informática. Em vista dessa demanda mercadológica, hoje há diversas maneiras de buscar a qualificação.

Uma saída para quem almeja ter maiores chances no mercado de trabalho é fazer um curso de graduação presencial ou a distância, devido às facilidades de financiamento do Governo Federal. Há outros cursos, como os técnicos, que duram por volta de dois anos e é uma boa alternativa para aperfeiçoar-se em determinada função. A dica é se capacitar e se manter sempre atualizado. Nivaldo afirma que é importante ter conhecimentos básicos, pois é preciso provar o seu potencial. E conta que, juntamente com seus amigos de profissão, fez um curso de aperfeiçoamento para porteiros há pouco tempo e afirma estar sempre aprendendo.

O mercado de trabalho está muito competitivo, mas não impede que pessoas mais velhas também tenham chances de se ingressar em alguma oportunidade. Apesar da idade parecer um empecilho, para alguns isto é só um detalhe, podendo até ajudar, visto como experiência. Percebe-se esse fenômeno na busca por conhecimento. Pessoas com mais idade estão “invadindo” as faculdades e dando um show de determinação e exemplo para os jovens que estudam com eles. Nivaldo acha muito boa esta nova realidade e conta que tem um amigo que não tinha estudo completo, “tirou o segundo grau” e hoje é formado em Direito. O porteiro afirma que, se pudesse, faria também.

Histórias de determinação como estas são exemplos de que com força de vontade e determinação se vai longe. O trabalho é importante para a vida, mas

sem conhecimento não se vai muito longe. Procurar mais informações sobre o que ocorre no mundo, ler mais e nunca se contentar com o que se tem são passos simples, mas que fazem toda a diferença para quem deseja vencer na vida. Não é uma roupa que dirá o que uma pessoa é de verdade, mas sim o que ela carrega dentro de si. Viver é aprender a respeitar o próximo e nunca se esquecer de estar sempre aprendendo, como diz o porteiro Nivaldo.

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Reportagem produzida pelos alunos do curso de Jornalismo da Faculdade Pitágoras Divinópolis/MG: Gleudson Sanches e Plínio César (3º Período)

Fotos: Gleudson Sanches e Plínio César

Edição e Supervisão: Professor Ricardo Nogueira (MG 11.295 JP)

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