Perfil: “Mulher macho, sim senhor”

21/01/2013 08:47

A vida da jornalista de “pavio curto” que encanta os amigos

Mulher de personalidade forte, transparente, profissional dedicada e que pode explodir a qualquer momento. Ao mesmo tempo, uma amiga como poucas. É assim que os amigos descrevem a jornalista Fernanda Morais, de 29 anos. Repórter e agora também política, nas últimas eleições concorreu ao cargo de vereadora em Divinópolis e recebeu 750 votos, na sua primeira eleição disputada. Uma pessoa sem máscaras: com ela, é ou não é. Capaz de dar uma gargalhada e, ao mesmo tempo, chorar de alegria, cair em lágrimas, que são enxugadas por mãos bem cuidadas, pintadas com um esmalte vermelho que por si só dizem quem ela é. Detalhes que sobressaem em um mundo masculinizado, exemplo como tantas outras, que diz apenas buscar o seu espaço. Ao ser questionada sobre o futuro, não titubeia e responde facilmente. “O futuro só a Deus pertence. Quero continuar vivendo e sendo feliz. Voltar para a TV, casar, ter filhos, plantar uma árvore”, brinca ela.

Impossível não rir

A transparência falada pelos amigos sai da boca da jornalista com a mesma naturalidade que ela descreve quem é Fernanda Morais. “Em alguns momentos, eu sou mais ‘porra louca’, doida, falo tudo que penso. Tomava as dores dos outros, envolvia em coisas que não eram pra mim”, conta. Nesse momento, o amigo e colega de trabalho, Bobby Fonseca, passa pela sala e salienta: “Ela é radical”. Fernanda olha, pensa e pondera. “Já fui bem pior”, conta, sorrindo. Ao ser questionada se já perdeu uma amizade devido a esse comportamento, ela pensa, pensa e surpreende. Parece lembrar de algum momento da vida, não em que perdeu uma amizade, mas outro que a fez cair em lágrimas, e justifica: “É porque vou ficar menstruada”, e já solta o riso.

Nascida em uma família de classe média, Fernanda Morais diz que nunca faltou nada em casa e não teve muitos problemas financeiros, até mesmo para fazer faculdade. “O meu pai não deixava faltar nada. Claro que, como em todas as famílias, uma coisa ou outra era um pouco mais complicada, mas nada demais.” O pai, empresário da construção civil, a mãe, sempre incentivadora, e o irmão, de 28 anos, são o apoio da jornalista. “Me dou bem com eles, me apóiam no que faço e estão sempre comigo”, afirma. Quando pergunto de onde vem essa força toda demonstrada quando busca um objetivo, ela dá mais uma pausa e chora novamente. “Não quero falar disso, posso não ser entendida.” Insisto: mas por quê?

“Meu pai bebia e às vezes tínhamos alguns problemas em casa. Então me sentia na obrigação de ser dura às vezes. Mas isso acabou e hoje ele (pai) está bem”, conta ela, com orgulho do pai que parou de beber.

Menina “macho”

Imagine uma menina que era para ter nascido homem. É ela mesma quem diz: “Eu gostava de brincar era com os meninos. Não gostava de boneca. Queria jogar bola, correr, brincar de esconde esconde, pé no bete. Já fiz até jogo do bicho, de brincadeira é claro, né?”, lembra ela dos bons tempos de criança. Atleticana roxa, daquelas que também torce contra o vento, foi influenciada desde cedo pelo pai a escolher o alvinegro mineiro como time do coração. A paixão pelo esporte fez da jornalista a primeira repórter de pista em um estádio de Divinópolis. O foco da jovem Fernanda Morais fica claro nas suas palavras. “Eu não dava moral para os jogadores. Sabia que ter um bom relacionamento com eles poderia me render boas fontes no futuro. Assim fazia, ficava na minha e não dava muito papo para conversa fiada”, explica ela como fazia para circular com facilidade no meio futebolístico, até então comandado pelos homens.

As histórias são muitas, desde as farras com os amigos, as reportagens que marcaram e os fatos recentes da sua curta carreira política. A confidente e colega de profissão Simone Lima é uma das companheiras de Fernanda. “Fizemos faculdade juntas, começamos no Jornal Agora (nosso primeiro emprego na área) no mesmo dia, fizemos muitas farras e eu considero ela uma amiga muito querida, que vou levar comigo para o resto da vida”, diz a amiga

de uma década. Então surge uma indagação: como uma pessoa pode ser, ao mesmo tempo, de “pavio curto”, ter dificuldades de demonstrar para os amigos o seu carinho com gestos, abraços, beijos e ser uma amiga como nem sempre encontramos? Essa pergunta é respondida por Simone, que brinca com a situação. Ela diz que, apesar do jeito durão, a jornalista é uma das pessoas mais sensíveis que conhece. “Ela não é de abraçar e nem ficar elogiando. Mas é a primeira a te enviar um ‘Feliz dia do amigo’ no celular. Sempre me escutou com paciência, me aconselhou e realmente demonstra preocupação com as pessoas que gosta. Sorte minha estar nessa lista”, conta.

A sensibilidade à flor da pele e a amizade sincera são as características mais destacadas pelos amigos e colegas de profissão. “A Fernanda é daquelas amigas que te incentiva a ir para a frente, quer te ver bem e torce por você. Sinceridade, acho que essa é uma de suas maiores qualidades,” diz Lima. O publicitário Kleyton Santos que, desde 2008 se relaciona com a jornalista, ressalta as qualidades da amiga. “Ela é uma mulher de personalidade forte. Às vezes tem dificuldade de demonstrar sentimentos, mas é uma pessoa maravilhosa e de bom coração. Como profissional, extremamente dedicada e apaixonada pelo que faz, jornalista de coração”, descreve.

Política e jornalismo

A tão falada ética cobrada no meio jornalístico também alicerçou a primeira candidatura a um cargo público. Após ser convidada várias vezes para se filiar a um partido político, ela escolheu o recém formado Partido Social Democrático (PSD) para a sua estréia em um pleito. “Escolhi o partido pela afinidade que tinha com as pessoas que estavam lá”, diz. Na faculdade era aluna atuante e participava dos movimentos que surgiam na instituição. Isso ajudou a despertar nela o desejo de ser candidata. Mesmo sem ser eleita, Fernanda não aceita o rótulo de derrotada. “Eu saí da campanha uma pessoa melhor. Nunca tinha disputado uma eleição e fui bem votada”. Ela diz que hoje se sente mais respeitada pela população que a viu não só como a jornalista, mas como a cidadã preocupada com a cidade. “Na faculdade eu já participava de movimentos. Vi no jornalismo uma forma de transformar a sociedade e a comunicação é a base para uma boa gestão. Política e comunicação têm ligação, uma não existe sem a outra”, diz ela ao justificar porque a jornalista quis ser vereadora.

A mistura entre comunicação e política rendeu. A jornalista disparou: “É uma demagogia falar que há total imparcialidade no jornalismo. Sempre há uma ligação com algum político, isso fica evidente em algumas publicações.” A conversa, que começou a ficar tensa, ganha um novo rumo quando alguém pergunta: “Vamos tomar café?” Ela responde de bate-pronto: “pode anotar o pão de queijo”, se referindo ao fato que os funcionários da emissora de TV onde ela trabalhava têm o hábito de comprar os alimentos consumidos durante o café que, posteriormente, é descontado. O comentário aflora umas das paixões de Fernanda Morais: a TV Alterosa de Divinópolis, de onde ela pediu demissão para ser candidata e faz planos para voltar. “Não sei se vou voltar e nem como, mas tenho planos para isso. Eu sai da TV, mas a TV não saiu de mim”, declara. Mas o destino se encarregou de começar a realizar os desejos da repórter, isso porque fomos interrompidos novamente por uma chamada em um dos ramais da redação. Era o gerente da TV Alterosa convidando Fernanda para uma conversa em sua sala. “Negócios a vista”, sai dizendo ela, sorrindo.

Emoção

Ao relembrar os momentos vividos na emissora, a mulher Fernanda Morais desencarna da repórter e as lagrimas são inevitáveis ao recordar uma das matérias mais emocionantes já feitas pela profissional. Dois irmãos, moradores de Arcos/MG, foram ajudados por uma entidade após um trabalho feito por ela, que contou a triste história dos garotos portadores de uma doença rara, chamada popularmente de “ossos de vidro”. O medicamento usado para o tratamento, Óleo de Lorenzo, passou a ser fornecido aos meninos, sendo que um já tinha a vida comprometida devido à enfermidade. O outro irmão, ainda sem sentir os sintomas, mas também portador, pedia o remédio para não ficar como o irmãozinho, em uma cama na dependência de quase tudo. “É por isso que amo o jornalismo”, conclui ela, enxugando as lágrimas.

Ela diz que não é poderosa por ter facilidade em circular ao mesmo tempo em vários ambientes. “Sou apenas determinada, me sinto forte. Poderosa é uma pessoa ambiciosa, capaz de fazer qualquer coisa. Eu não: tudo que consegui é porque estava na hora certa e no lugar certo”, afirma. Sobre o futuro político, Fernanda diz que irá se engajar em alguma associação, de modo a colaborar de alguma forma, mas não garante outra candidatura em 2016, quando haverá outra disputa municipal.

No fim do papo entramos em um assunto delicado, o coração. Mulher, amiga, namorada que encontrou em um fisioterapeuta o companheiro com quem ela faz planos para se casar. Sobre os amores da adolescência, ela fala pouco. Teve dois namorados, um com quem ela se relaciona há cinco anos até os dias de hoje e outro “atraso de vida”, que ela descreve sem perder o bom humor. “Você escreve tudo?”, questiona ela, dando gargalhadas. Choro, risos, alegrias, palavras bem colocadas e muitas vezes frases diretas e objetivas. Fernanda Morais é sem rodeios e deixa claro, mesmo sem pronunciar uma só palavra, que para ela o importante na vida é sermos quem somos e não o que os outros querem que sejamos. Então, eu questiono: você já descobriu o seu limite? “Não sei, a gente é pré-pago?”, finaliza ela, às gargalhadas.

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Reportagem/perfil produzido em novembro de 2012 pelo aluno do curso de Jornalismo da Faculdade Pitágoras Divinópolis/MG: Cláudio Miranda (3º Período)

Fotos: Arquivo Pessoal

Edição e Supervisão: Professor Ricardo Nogueira (MG 11.295 JP)

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