Perfil: Mãe, esposa, dona de casa, batalhadora e avó

04/02/2013 13:18

Chefe de cozinha Vicentina Pereira, apesar da pouca formação, mostra a importância dos ensinamentos da vida

É segunda-feira, ela está de folga do trabalho. Isso acontece somente nesse dia da semana. Ela se pôs disposta no momento em que disse que havia um trabalho de Faculdade a ser feito e precisava de alguém com uma bagagem de vida. Chegando lá ela se encontrava toda receptiva com uma mesa de quitanda com direito a suco, café, leite, pão de queijo e rosca. Ela sempre com um sorriso estampado no rosto, embora o sinal de cansaço em sua face apareça, assim como as olheiras.

Vicentina Maria da Silva Pereira, de 53 anos, nasceu em um povoado da cidade de Cláudio com nome de Ribeirão do Servo (Capão da Galinha). Segunda filha de uma família humilde com outros três filhos, ela ajudava seu pai na produção de carvão e, nas horas livres, tomava conta de casa e dos irmãos, pelo fato de sua mãe ter falecido dois anos após o nascimento do seu irmão mais novo. Aos 14 anos de idade Vicentina conheceu Jésio, que fora apresentado pela sua irmã mais velha (Maria Aparecida). Vicentina e Jésio vão se conhecendo e dando inicio a um relacionamento. Aos 16 anos de idade ela se casa e, seis meses após o casamento, ela da à luz a sua primeira filha (Adriana), dando início a uma família constituída por 6 filhos.

Quando engravidou do último filho, aos 32 anos de idade, ela e seu marido resolvem abandonar a zona rural e mudam para a cidade de Cláudio, em busca de uma qualidade de vida melhor, local onde vivem até hoje. No início foi difícil se adaptar. Trabalhava como doméstica e o salário não era justo, sem contar que deixava os dois filhos mais novos em casa sem a companhia de um adulto, afinal ela precisava trabalhar para ajudar no sustento de casa. Dois anos se passaram até que surge uma oportunidade de emprego em um restaurante. Ela abraçou essa oportunidade, já que havia uma facilidade para cozinhar e começou como auxiliar de cozinha. Trabalhando somente aos finais de semana, devido a sua luta e conhecimento, aos poucos ela foi conquistando seu espaço. Dentro de alguns meses ela passa a ser a cozinheira e, atualmente, trabalha como chefe de cozinha.

Desafios

Ao longo de sua vida e com a família criada, Vanessa, uma das filhas de Vicentina, engravida aos 16 anos de idade. Na época, Vanessa disse que era nova para cuidar de criança e que tinha muito para viver ainda. Vicentina e Jésio pegam, então, a guarda de Ana Clara e, mesmo não exercendo seu papel de mãe, Vanessa continua morando junto com os pais. Alguns anos depois Vanessa engravida novamente e, apesar de ter seu segundo filho, Jorge Lucas, ela ainda dizia que era cedo para cuidar de criança. Visto que a criança não tinha culpa, Vicentina mais uma vez pega a guarda do neto. Quando Vanessa engravida do terceiro filho, ela resolve sair de casa, voltando mais tarde, no final da gravidez. Vicentina até tentou cuidar do terceiro neto, mas o cansaço e a idade não ajudam mais. Adriana (madrinha e tia) passa, então, a ter a guarda de Ana Júlia (a terceira filha de Vanessa).

Os filhos de Vicentina afirmam que a mãe é um exemplo de pessoa e que, apesar dos obstáculos que a vida oferece, ela soube se destacar, não só no mercado de trabalho, como também em casa e com alguns moradores da cidade, pois boa parte dos cidadãos já apreciou ou degustou algum prato dela.

“Tenho muito orgulho de minha mãe, principalmente quando alguém me para na rua e fala que tenho sorte em ter a mãe que tenho e por comer a melhor comida da cidade todos os dias, colocando sempre em destaque a lasanha ou o pudim”, conta Alessandro (28), filho de Vicentina.

Os vizinhos do casal também não a enxergam de forma diferente dos filhos. Eles afirmam que Vicentina é uma pessoa decidida e batalhadora. Não se vê ela na rua falando da vida de ninguém, pelo contrário, só se vê ela chegando do trabalho todos os dias de uniforme. Luzia (58), uma prima que mora próximo, disse que Vicentina já tem seu espaço garantido no céu, pois só ela mesma sabe o que já passou para chegar onde está hoje.

Rotina pesada

Sua rotina não é nada fácil: ela levanta às 6h de terça a domingo, faz o café para o marido e arruma seus netos para irem à escola, onde estudam em tempo integral. Ela vai caminhando todos os dias para o local de trabalho. São 15 minutos de caminhada, cujo trajeto não muda há 19 anos. Vicentina é a primeira a chegar todos os dias no restaurante, por ser chefe de cozinha. Ela adianta tudo até que suas parceiras de trabalho chegam, pois às 11h o almoço tem que estar servido.

Ela tem um convívio legal com todos e está sempre expressando suas ideias, falando o que pode vir a dar certo ou não. Sua facilidade de saber passar o que sabe ajuda no dia-a-dia das colegas, pois ameniza sobrecargas. Alessandra (27), uma das suas companheiras de trabalho, diz que tem aprendido muito com Vicentina nesses dois anos de trabalho juntas, pois, além de paciente, Vicentina também sempre responde tudo o que se pergunta.

A chefe de cozinha faz o que gosta e sente prazer ao exercer sua profissão. Acima de tudo, sente orgulho por isso. Está sempre de bom humor e tem o restaurante como uma parte da sua vida, pois é nele que passa a maior parte do seu tempo. É lá que ela esquece um pouco os problemas da vida e de casa. O marido Jésio até brinca falando para ela levar o colchão para lá, para que possa morar, já que ela volta para casa somente no fim da tarde e, no outro dia de manhã, tem que estar lá novamente. Momentos de lazer em família quase não existem para ela, pois no final de semana, quando todos estão à disposição, é quando ela mais trabalha. É ali, dentro daquela cozinha, que ela sorri quase o dia todo.

O domingo a tarde ainda é dedicado à família. Após chegar do trabalho ela sempre prepara um jantar, em que reúne todos os filhos e netos. Todos fazem o possível para comparecer todos os domingos, pois é um modo de matar a saudade e se comunicarem. A casa fica cheia, é um momento de confraternização que dura por algumas horas. E em casa não é muito diferente do trabalho, ela sempre busca novos pratos para servir.

Vicentina sempre usa sua criatividade, afinal ter que servir almoço todos os dias para um público de todos os gêneros não é uma tarefa muito fácil. Isso sem falar que tem que estar sempre diversificando e buscando novos pratos para conquistar e fidelizar os clientes. Todos elogiam sua comida e boa parte sempre volta. Alguns clientes até a procuram fora do local de trabalho para que ela possa fazer algum prato ou guloseima. Tatiane, uma de suas clientes, afirma que a lasanha de molho branco feita por Vicentina é uma coisa inigualável, não pode ser comparado com nada.

Batalha diária

Final de expediente do trabalho. Embora sua carga horária no restaurante tenha acabado, o dia está apenas começando. Às 16h15 é hora de buscar os netos na escola, que fica a alguns quarteirões do local onde trabalha. Vicentina se preocupa com educação deles e sempre pergunta a professora como foi o comportamento deles durante o dia. Para ela, isso é muito importante, pois tem que estar atenta e se preocupar com o futuro deles, “já que educação vem de casa, a escola é apenas um complemento”, reforça.

Ela chega em casa e é hora de cuidar dos seus afazeres domésticos. Uma música vinda da rádio de sua cidade é um incentivo para exercer suas funções do lar. Ela varre e passa pano, enquanto o tanquinho bate a roupa. Depois ela enxágua e as estende no varal. Seu marido chega do trabalho após um dia cansativo, é hora de servir o café da tarde. Vicentina coloca o café na mesa onde assentam todos por alguns minutos. Os netos querem contar como foi o dia, ela dá atenção e os ouve. Após todos tomarem o café, ela retira a mesa. Jésio vai para o banho e os netos fazem a tarefa de casa, enquanto Vicentina já está cuidando do jantar.

A noite vem, o jantar está servido, todos vão para a sala em frente à TV. Ali passam o resto da noite assistindo novela e conversando. Vicentina coloca os netos para dormir e, alguns minutos depois, ela também vai descansar para o próximo dia, afinal a batalha continua.

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Reportagem/perfil produzido em novembro de 2012 pelo aluno do curso de Jornalismo da Faculdade Pitágoras Divinópolis/MG: William Pereira (3º Período)

Foto: William Pereira

Edição e Supervisão: Professor Ricardo Nogueira (MG 11.295 JP)

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