Pequenos no tamanho, gigantes em superação

29/06/2012 09:15

Os percalços de quem luta pela vida desde o primeiro choro: os prematuros

 

O sonho de toda mulher, ao se tornar mãe, é que seu filho seja saudável. Não imagina para seu filho nenhum imprevisto durante o nascimento, pois, para ela, é a maior realização da sua vida. Porém, algumas crianças necessitam de cuidados especiais no nascimento, na infância e, em alguns casos, até a adolescência: os prematuros. De acordo com o pediatra endocrinologista, Enius Guimarães, fazem parte desta estatística os “recém-nascidos de baixo peso (menores de 2kg), e altura abaixo do esperado.” Em 90% dos casos, os recém-nascidos se recuperam e conseguem obter uma altura e peso compatível com a sua idade até o terceiro ano de vida. Já os 10% restantes, após este período de espera, quando o resultado obtido não é satisfatório, iniciam um tratamento para auxiliar no aumento da estatura da criança, que se encerra ao completar 14 anos na idade óssea feminina e 16 anos na idade masculina. Segundo o endocrinologista, a fase de crescimento se encerra aos 16 anos de idade óssea em mulheres e 18 anos em homens. “Não contamos a idade cronológica, o que importa é a idade óssea. Paramos o tratamento dois anos antes para deixar o corpo corresponder sozinho”, explica.

Segundo estudos da OMS (Organização Mundial da Saúde), nascem anualmente 15 milhões de crianças prematuras no mundo e mais de um milhão delas morrem todos os anos. Na maioria dos casos, os óbitos são ocasionados por complicações na saúde. O Brasil é o décimo país na lista de prematuros, com 279.300 bebês nascidos em 2010. Destes, 12 mil crianças não sobrevivem por complicações na saúde. E, segundo as estatísticas da OMS, 9,2 em cada 100 crianças nascidas no Brasil são prematuras. Quem lidera o ranking de prematuros é a Índia, com aproximadamente 3,6 milhões de crianças.

Após o nascimento, um prematuro necessita muitos cuidados. Devido a sua fragilidade, após o nascimento é comum que ele seja conduzido para uma incubadora, em uma UTI Neonatal. Na UTI, o bebê é assistido por uma equipe de médicos especialistas, atentos a cada avanço do bebê durante 24 horas,

garantindo o funcionamento de todas as funções vitais do pequeno guerreiro. Outros equipamentos são fundamentais para a sobrevivência, como os monitores de frequência cardíaca, a sonda gástrica, que auxilia na alimentação do bebê na incubadora, e também o oxímetro, que mede constantemente a oxigenação no sangue e permite regular a quantidade necessária para que o bebê sobreviva.

Com tantos auxílios e a esperança dos pais e familiares, naquele momento começa uma das maiores lutas de uma pessoa pela vida. A angústia e a apreensão do momento do nascimento, com o passar do tempo, pode, no entanto, dar lugar a alegrias e brincadeiras. Este é o caso de Márcia Santos, estudante de Jornalismo, e seu filho, o pequeno Paulo Afonso, de cinco anos. O garoto nasceu no 7º mês de gestação. “Estava preocupada desde o fim de semana, após alguns acontecimentos, e notei que minha barriga ficava mais dura que o normal,” conta. A universitária procurou sua médica na semana seguinte para uma consulta de rotina para o pré-natal. “Naquela consulta, a médica me tranquilizou, disse para esperar e, se caso ocorresse algo de anormal, para entrar em contato”, lembra.

Além da preocupação, alguns dias após a consulta, durante a missa de formatura de sua cunhada, Márcia sentiu uma forte dor, entrou em contato com sua médica e foi conduzida ao hospital. Na chegada houve uma reviravolta no diagnóstico da médica. “Ela mudou o discurso, notou que não poderia esperar mais e optou pela cesariana, por não ter a dilatação”, explica. Márcia só pôde pegar o filho no colo após seis dias do seu nascimento. Dos 14 dias em que ficou na incubadora, em sete deles Paulo ficou recebendo cuidados especiais, especialmente porque “o pulmão esquerdo dele não estava aberto”, recorda a mãe. Hoje, Paulinho, como é apelidado pela família, é um garoto saudável e surpreendeu a todos. Corre e brinca como qualquer criança de cinco anos. As dificuldades no nascimento não afetaram seu desenvolvimento e a sua estatura é compatível com um garoto da idade, conta a estudante.

Tratamentos

Há cerca de 15, 20 anos, a medicina não havia evoluído tanto quanto atualmente, proporcionando novas alternativas para tratamentos e aumentando as chances de sucesso nos procedimentos. Na endocrinologia pediátrica não foi diferente, como explica Enius Guimarães. “Houve uma evolução e, em pesquisas, foi descoberta uma alternativa dentro do tratamento com hormônios, algo que anteriormente achávamos muito arriscado”, explica.

Estudos comprovam a eficácia de uma dose suprafisiológica, acima da normal, tomada por pacientes que necessitam de um tratamento para o auxílio no aumento da estatura, que pode surtir o efeito desejado em alguns casos. “Não podemos afirmar que possa ser bem sucedida (a nova alternativa) em todos os casos”, pondera o pediatra endocrinologista. O tratamento é individualizado, pois para cada caso há um diagnóstico específico. Para o médico, também é válido o acompanhamento psicológico da criança durante o tratamento, auxiliando no seu bem-estar e motivação. Isso pode ser um grande aliado, por se tratar de uma questão não só médica, mas também comportamental.

A estatura é uma questão muito comentada e analisada na sociedade, pois são estipulados “padrões” sobre a estatura de homens e mulheres. Quando fogem à regra, acabam sendo enxergados de forma diferenciada, causando indiferença. “É incomum para a sociedade ver um homem de baixa estatura ou uma mulher muito alta. Mas é algo perfeitamente normal, mesmo que fuja dos padrões”, afirma Enius Guimarães. Algumas pessoas não se incomodam com a baixa estatura, outras se sentem um pouco mais retraídas. “Isso se reflete até no comportamento, são pessoas mais tímidas, falam pouco, podendo até não aceitar algumas brincadeiras e entendendo como algo provocativo”, conta o médico, que ainda relata sua experiência e de sua esposa sobre o assunto. “Me sentia incomodado com a minha estatura quando era mais jovem. Mas hoje é tranquilo, por isso ajudo da melhor maneira meus pacientes. Já minha esposa nunca se importou e não passou pela cabeça dela fazer qualquer tratamento para o aumento de sua estatura”.

Família e escola: apoios fundamentais

Enius Guimarães ressalta dois fatores importantes para o sucesso do tratamento: o apoio da família e o rendimento escolar, podendo ser vilões ou aliados do paciente. O apoio da família pode ser um grande aliado, a partir do momento em que os pais aceitam encarar a situação e motivam os filhos para iniciar e dar continuidade ao tratamento. “Procurar assistência médica, dialogar com a criança e apoiá-la, fazendo com que ela se sinta como uma pessoa normal é fundamental”, orienta o médico. Porém, podem ocorrer repreensões pelo fato dos pais não assimilarem as limitações, reconhecer a situação e procurar um médico. “Mas isso ocorre em situações extremas, em casos mais graves, como lesões ósseas”, explica o endocrinologista.

Para Márcia, este apoio foi fundamental. “Foi um susto, só quem passa por isso sabe como é o apoio. A força da família ajudou muito e hoje o Paulinho é amado e muito querido por todos”, conta. Da mesma forma, a questão escolar vem se tornando uma aliada no sentido motivacional, para que a criança obtenha boas notas, para “corresponder” de uma forma sadia às brincadeiras de mau gosto sobre o fato dela ser um pouco menor que seus colegas de classe. “Brincadeiras como essas, ou o próprio bullying atrapalham no tratamento, desmotiva o garoto. Por isso o diálogo dos pais é fundamental”, ressalta Enius Guimarães.

Curiosidades

Desde o nascimento até a fase adulta, pessoas que não tiveram a “sorte” de obter uma estatura compatível à sua idade acabam “sofrendo” para encontrar roupas e calçados adequados. Para a sociedade, é incomum um homem adulto utilizar um calçado tamanho 35 ou 36, por exemplo. As mães também têm dificuldades para comprar roupas para recém-nascidos prematuros.

Mas o vestuário não é o único problema em comum entre as mães desses guerreirinhos. Em virtude disso, há um blog na internet, o prematuridade.com, criado por uma nutricionista gaúcha, que se dedica a dar dicas para cuidar da saúde de prematuros. Mesmo que seu filho não seja prematuro, a blogueira percebeu a necessidade de criar o espaço após o contato com os pequeninos

e as dificuldades dos pais em encontrar informações atualizadas e objetivas sobre o tema, como descrito no blog. O espaço contém dicas de nutrição, sobre os cuidados com os bebês, informações sobre a UTI neonatal, vacinação, histórias reais, relatos dos problemas, situações angustiantes, as vitórias das mães e bebês que venceram as dificuldades, além de curiosidades, como informações sobre famosos que nasceram prematuros. Alguns deles são Isaac Newton, Charles Darwin e Steve Wonder.

O Dia Internacional de sensibilização para a prematuridade é comemorado em 17 de novembro e foi criado para atentar à população sobre os cuidados com as crianças e suas mães durante o parto. Há ainda uma declaração universal, redigida por um pediatra carioca, Luís Alberto Mussa Tavares, enaltecendo o desejo de garantir os direitos aos pequenos guerreiros. “Todo o prematuro tem o direito de ser cuidado por uma equipe multidisciplinar capacitada a compreendê-lo, interagir com ele e a tomar decisões harmoniosas em seu benefício e em prol de seu desenvolvimento” (Artigo IV, Declaração Universal dos Direitos do Bebê Prematuro). Enius Guimarães reforça o apoio e conta como motiva os pacientes: “Sempre digo que nos menores frascos há os melhores perfumes. Eles não são diferentes de ninguém, mas são especiais”, finaliza.

“Reportagem produzida por uma pessoa nascida prematura há 19 anos, em 30 de Abril de 1993. Quando nasci, as medidas eram bem discretas: 33 cm e 1,2 kg. Por 30 dias fui observado e fiquei sob cuidados especiais na UTI neonatal. Necessitava até de uma transfusão sanguínea, pelo baixo número de plaquetas. Hoje não tenho uma altura compatível com minha idade, mas não é algo que afete tanto. Escrever esta matéria foi uma ideia que sempre quis colocar em prática e, cursando Jornalismo, felizmente tive a oportunidade de, indiretamente, poder contar um pouco desta e de outras histórias, com as dificuldades e o sofrimento que logo se tornam felicidade”. Matheus Tavares

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Reportagem produzida pelo aluno do curso de Jornalismo da Faculdade Pitágoras Divinópolis/MG: Matheus Tavares (3º Período)

Fotos: Matheus Tavares

Edição e Supervisão: Professor Ricardo Nogueira (MG 11.295 JP)

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