Obras de Portinari sob novos olhares

06/07/2012 13:17

Fazer releituras das obras do artista plástico Cândido Portinari: esse foi o desafio proposto pelo professor de Fotografia dos cursos de Comunicação Social da Faculdade Pitágoras, Mateus Dias, aos alunos do 3º período. Os trabalhos foram realizados e expostos no Seminário de Comunicação, que ocorreu no final da primeira quinzena de junho na Faculdade Pitágoras.

Portinari é um dos maiores artistas plásticos brasileiros e poucas pessoas conhecem de fato seu trabalho. Em suas obras, o pintor retrata o povo brasileiro e parte da história política social do país. Para o professor orientador dos trabalhos, a escolha das obras do artista foi perfeita para a produção de releituras com conceitos contemporâneos. “Quando propus este tipo de trabalho, a turma aceitou muito bem a proposta e se interessou pelo pintor. Penso que, além de preparar tecnicamente o aluno para o mercado de trabalho, o período de graduação deve ser permeado de atividades que enriquecem a bagagem cultural e o repertório do nosso profissional”, diz Mateus Dias.

Com a finalidade de colocar em prática as teorias ensinadas em sala de aula, Mateus explica que o principal objetivo da atividade foi “colocar boa parte do conteúdo teórico e técnico exposto dentro da sala ao longo do semestre, como abertura do diafragma, composição fotográfica, planejamento etc. No entanto, quis aproveitar a oportunidade para proporcionar aos alunos um contato com algo que fosse inspirador e que pudesse render trabalhos consistentes, envolvendo arte, comportamento humano, realidade brasileira e comunicação”.

De acordo com o Secretário de Cultura de Divinópolis e professor dos cursos de Comunicação Social da Faculdade Pitágoras, Bernardo Rodrigues, o mercado demanda mais um comunicólogo do que um profissional técnico focado só em jornalismo ou publicidade. “Acho que esse momento de incentivo à produção muitas vezes revela aos próprios alunos uma capacidade que eles

mesmos desconhecem. A turma demonstrou isso de uma forma bonita e que vale a pena ser exposta também fora da faculdade. Por isso é fundamental ter a vivência prática desde o início”, diz Bernardo. O professor, que também é músico, parabeniza a turma pela credibilidade e qualidade dos trabalhos, e ressalta que fazer a releitura de um artista com toda a identidade brasileira é uma experiência muito rica, não só para os alunos, mas também para os professores e visitantes da mostra.

Várias interpretações podem ser feitas a partir de uma obra de arte, assim como também existem diversas possibilidades de releituras da mesma obra. Fazer a releitura não é apenas um ato de copiar ou reproduzir, é necessário interpretar a obra e trabalhar a criatividade. E foi sob um ângulo diferenciado que os alunos utilizaram materiais alternativos, como produtos reutilizáveis, e deram um ar contemporâneo às obras que foram expostas durante o Seminário de Comunicação, ao som do compositor Heitor Villa Lobos.

O Cangaceiro e o Cabrito

“A mulher no cangaço moderno”. Assim foi intitulada a releitura da obra original. Em meio à dimensão artística o grupo, formado pelos alunos Flávia Campagnani, Elissandra Flávia, Marciel Muniz, Camila Brant, Barbara Morais, Francielle Cristina, Vanessa Daldegan e Ana Paula D’Eça destacou a figura feminina. De acordo com os componentes do grupo, a época em que a obra foi retratada mostra um período em que a mulher era submetida ao domínio do homem. Mas, atualmente, esta situação é outra, como ressalta a aluna Francielle Cristina. “Destacamos a importância da mulher com o seu papel na sociedade, assim como sua evolução”.

Na composição do figurino foram utilizados utensílios do universo feminino, como lenço, batons, saia em couro sintético, bota e chapéu. A munição foi substituída por rolinhos de cabelo e batons, para simbolizar a mulher nos dias atuais. O cachorro de pelúcia simboliza a feminilidade e delicadeza da mulher. Serragem, tecido, prato de papel descartável e banco de madeira completam o cenário. Os alunos contaram com a participação da Modelo da Oficina Mundi

Model's, Letícia Lenita, que se mostrou satisfeita com o resultado. “Gostei muito de participar da releitura do ‘Cangaceiro e o Cabrito’ como a cangaceira moderna e foi super bacana a criatividade e ousadia proposta pelo grupo”, ressalta.

Casamento na roça

A releitura intitulada “Amor [Im] Perfeito” foi inspirada no casamento homoafetivo em meio ao preconceito cultural. É retratada a liberdade de expressão do amor, independentemente de orientação sexual. O grupo foi formado pelos alunos Maysa Ribeiro, Thiago Xavier, Lorrane Lilian, Victor Guilherme, Gustavo Costa, Elisa Faria e Fernanda Nunes. Segundo Victor Guilherme, o grupo queria mostrar que existe amor entre pessoas do mesmo sexo, já que não se escolhe o amor, ele acontece.

No cenário foi utilizado papelão, serragem, tinta em spray, adesivo, papel craft. Acessórios como véu e bouquet de flores remetem à tradição matrimonial. Os modelos foram Gustavo Costa, integrante do grupo, e Halssil Júnior, aluno de Ciências Contábeis.

O lavrador de café

A releitura “O lavrador brasileiro” foi realizada pelos alunos Cássia Almeida, Daisy Andrade, Edson Costa, Flávia Gomes, Grasiele Felíssimo, Jéssica Suelen, Maiara Bruna, Maíra Marta, Pedro H. Meneses, Rodolfo Régis e Victor Messias. Cássia Almeida explica que o grupo tentou aproximar a perspectiva de dégradé do fundo montado com papel de seda amassado, contextualizando para o contemporâneo, mas seguindo os traços da obra original. A árvore decepada, à direita na obra de Portinari, significa desmatamento. A lata de lixo e o planalto central retratados na releitura representam um lavrador nos novos tempos, fazendo uma crítica à corrupção no Brasil.

Cássia ressalta que o mais ousado foi manter os mesmos traços do fundo em épocas diferentes. No cenário foram utilizados cédulas de dinheiro, tampinhas e folhas secas. Participação do Modelo da Oficina Mundi Model's, Elio Wesley.

O vendedor de Passarinho

A releitura intitulada “Liberdade Gratuita” faz referência ao uso das redes sociais, de acordo com o grupo formado por Cleuber Waine, Daniela Alves, Mariana Ester, Gleydson Sanches, Plínio César, Felipe de Oliveira, Thays Daniele, Daniel Eugênio e Jéssica Amorim. O pássaro azul, símbolo do Twitter, retrata a liberdade que as pessoas têm de se expressar de forma “gratuita”. Contudo, há restrições, pois a censura limita a liberdade de expressão. Cleuber Waine conta que o trabalho foi muito importante para sua formação acadêmica. “Percebi que, ao fazer uma releitura de uma obra tão consagrada, damos a ela novos sentidos, transformando-a em outra obra”, afirma.

Para composição do cenário foram utilizados sacos de lixo, papel seda, adesivos, serragem, papel craft, gaiola de madeira e passarinhos. No figurino, calça alfaiataria, camisas brancas, suspensório e chapéu de palha. Houve a participação dos modelos da Oficina Mundi Model's, Jhonatan Junio Caetano e Lucas Silvério Salomé.

Aprendizado

Com o objetivo de buscar olhares e opiniões externos, foram convidadas para avaliar os trabalhos as ex-alunas dos cursos de Comunicação Social, a fotógrafa Raquel Thomasi, e a jornalista Marcela Mesquita. A exposição foi aberta ao público. Marcela Mesquita ficou admirada com a iniciativa. “Achei muito interessante e todos os trabalhos não perderam as características das obras originais, mas sim trouxeram todas para um lado mais contemporâneo, foram criativos”, diz.

Raquel achou interessante a iniciativa de trazer as obras de arte para uma realidade que não é tão próxima para os profissionais de Comunicação, por

não lidarem com esse material no cotidiano. Ela explica, no entanto, que este é um conteúdo muito importante, principalmente para quem trabalha com fotografia. “A arte e a fotografia estão muito próximas”, afirma. O professor de fotografia, Mateus Dias, se diz satisfeito com os resultados. “Algumas pessoas passaram pela mostra várias vezes, chamaram alunos de outros cursos para ver e fotografar as obras. O corpo docente, a coordenação dos cursos de Comunicação e os convidados do evento também se manifestaram de forma extremamente positiva”, finaliza.

Conheça Cândido Torquato Portinari

Filho de imigrante italiano, nascido em uma fazenda na cidade de Brodowski, no interior de São Paulo, em 29 de dezembro de 1903, Cândido Portinari é um famoso pintor brasileiro, que retratou em suas obras sua terra e sua gente. Pintou crianças brincando, trabalhadores de café, retirantes, caboclos, expressões de religiosidade e fatos históricos que retratavam questões sociais.

Aproximou-se da arte moderna européia sem perder a admiração do grande público. Suas pinturas se aproximam do cubismo, surrealismo e dos pintores naturalistas mexicanos, sem, contudo, se distanciar totalmente da arte figurativa e das tradições da pintura. O resultado é uma arte de características modernas. Em 06 de fevereiro de 1962, envenenado pelas tintas que o consagraram, o Brasil perdeu um de seus maiores artistas plásticos.

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Reportagem produzida pelos alunos do curso de Jornalismo da Faculdade Pitágoras Divinópolis/MG: Elissandra Santos, Flávia Campagnani e Marciel Muniz (3º Período)

Fotos: Prof. Mateus Dias

Edição e Supervisão: Professor Ricardo Nogueira (MG 11.295 JP)

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