O antigo moderno: tabus prevalecem em comunidades rurais

09/08/2012 15:20

Mudanças tecnológicas invadem o campo e transformam as relações pessoais

Ser diferente em uma comunidade rural pode ser arriscado. O ciclo dessa população já segue um ritmo cronológico “estabelecido”: aprender a ler, escrever, trabalhar, casar e ter filhos. Quem sai fora dessa linha logo recebe as primeiras críticas. Estrada de terra, pessoas humildes, sanfona, violão. Assim se resume Quilombo do Gaia, comunidade rural de São Gonçalo do Pará. Lugar tranquilo, hospitaleiro e repleto de boas energias. Tecnologia? Apenas o mínimo. Televisão e rádio. Internet é para poucos, apenas famílias tradicionais, com um poder aquisitivo maior, desdenham desta ferramenta.

A falta de informação dificulta a estes moradores aceitarem a modernidade. As normas que regem a comunidade são impostas pelos próprios moradores Filhas sempre acompanham os pais, dormem cedo, não frequentam bares, namoram e casam novas. Qualquer pessoa que tenha ideias opostas às da maioria paga caro por isso. Dentre os inúmeros “problemas” que este pequeno lugar possui, piercing, tatuagem e ser seguidor de uma religião diferente da maioria são dominantes. Nenhum deles são aceitos e nem bem vindos. Quem desrespeita esta “regra” é descriminado.

Andando pela praça logo encontra-se um grupo de amigas. De imediato, uma chamou atenção pelo seu jeito diferente em relação às outras. Sorrindo aos quatro cantos, Amanda Franciele, estudante de 20 anos descobriu uma maneira diferente de se exibir: os piercings. “Ser linda não é mais um diferencial, tem que ser descolada e, de imediato, ser notada onde eu estiver, e aqui tem funcionado”, conta. Questionada sobre a aceitação do acessório ela diz que sofreu “muito no começo por ser a única menina que usava piercing. Tenho dois, um no umbigo e outro no nariz. Queria mesmo era fazer uma tatuagem. Meus pais não deixariam jamais. Mesmo tendo maior idade, quem manda na minha vida são eles”, explica.

Nos centros urbanos estes acessórios já quase não são mais objetos de desejo pelas adolescentes, pois quase todas já usam e já não é visto como um diferencial. Clarice Izabel, moradora da comunidade e professora aposentada, aponta inúmeros problemas dos jovens do século XXI. “Não suporto gravidez de solteira, funk, casal homoafetivo, anticoncepcionais e pessoas de outra religião”, afirma. Inúmeras restrições são apontadas por ela quando a palavra é “aceitação” e não poupa críticas a estes jovens. “Eu não gosto de tatuagens e nem qualquer outra coisa que chame atenção. Mulheres solteiras grávidas eu tenho horror só de olhar, no meu tempo não era assim, sou de uma família de princípios, extremamente conversadora. Pra que sujar o corpo? Não pode, isso é errado. O nosso corpo é templo sagrado do Espírito Santo”, justifica-se.

Sobre a religião ela diz não ver motivos para as pessoas serem criadas em outras crenças. “Me machuca ver os poucos moradores que temos indo para outras igrejas, pois religião não é roupa que se troca a todo o momento. É só um problema aparecer que elas resolverão?”, questiona. Na comunidade, a religião católica é predominante e famílias saem de suas casas com roupas novas aos domingos com destino à igreja. É um compromisso fiel, passado de geração em geração.

Não demora muito e o telefone da estudante Amanda toca. Vocabulário calmo e amoroso, os olhos brilhavam. De imediato percebia-se com quem possivelmente estava a falar: seu namorado. “Ele é lindo, usa brinco e tem tatuagem. O homem ideal para qualquer mulher, principalmente para mim. Se sou diferente, óbvio que meu namorado também teria que ser. Somos um casal perfeito”, conta.

Péricles Alexandrino, 24 anos, namorado de Amanda, é lutador de muai thay e defende a atitude de ter feito uma tatuagem de escorpião nas costas: “Eu sempre tive vontade de fazer. Faço academia e esta é uma das maneiras de me mostrar diferente perante os outros e costuma dar certo, onde passo todos me olham”, afirma. Perguntado sobre o motivo de ter feito isso, ele diz que o brinco não estava mais surgindo efeito. “Estava muito comum, por isso resolvi ser um pouco mais ousado”, explica.

Tatuagem causa um grande impacto. Se bater o arrependimento, sua remoção é dolorosa e o custo para retirá-la é alto. Dói na pele e no bolso. O motivo pelo qual estes jovens tatuam partes de seu corpo são diversos, geralmente relacionados a lembranças e significados que querem levar para o resto de sua vida ou por serem induzidos pela mídia por meio de ídolos. Já os piercings podem ser retirados a qualquer momento e costumam cicatrizar depois de alguns dias.

 

Culpa de quem?

A educadora Elizabete, também moradora da comunidade, enxerga a modernidade com outros olhos. “Não se deve culpar os jovens pela rápida metamorfose que passam. Devemos nos adaptar a essas mudanças porque os meios tecnológicos (rádio, televisão, celular) nos exigem isso e só tem a aumentar. Quando à internet tornar-se acessível para todos da comunidade, muitas coisas modificarão”, prevê.

O campo não acompanha a velocidade de transformação do meio urbano, pois a maneira como se vive é diferente. Enquanto na cidade meninas se arrumam para irem ao shopping encontrarem com as amigas, no ambiente rural é fundamental que estejam sempre em casa ajudando a mãe nos serviços domésticos. Lugares tão próximos e com realidades muito diferentes.

“Desconheço balada, o pouco de festa que vi até hoje foi a faculdade quem me proporcionou. Mas tudo isso é mantido em sigilo, as pessoas mais velhas me condenariam se descobrissem que já frequentei bar com minhas amigas”, diz Amanda. Péricles já frequentou festas, mas hoje não frequenta mais. “Fui criado aqui, mas me mudei para Belo Horizonte muito novo. O que aproveitei da vida foi lá, depois que voltei pra roça precisei me readaptar aos costumes. É impressionante, mas poucos jovens daqui já frequentaram uma balada”, diz.

De fato, festas e faculdade não são prioridades para estes jovens, que desde muito cedo precisam criar responsabilidades para ajudarem em casa nas despesas. São raríssimos os casos de adolescentes que alcançam o ensino superior e, ainda assim, tais conquistas são vistas como algo desnecessário, justamente por acharem que o futuro de todos eles se limitará a ficar ali mesmo. Elizabete acredita que existem sim muitos adolescentes dispostos a cursarem o ensino superior, mas a localidade e o valor de custo dificultam e muito.

Quando a palavra é internet, pouquíssimo se sabe sobre o assunto na comunidade. O Facebook, que é uma ferramenta de uso mundial, ainda é novidade na zona rural e vem despertando interesse nos adolescentes. Mesmo sem saber sequer pronunciar o site de maneira correta, é notável que este é um assunto presente em todos os grupos de meninos e meninas em Quilombo do Gaia. Os pais e idosos se preocupam por não conseguirem acompanhar o ritmo acelerado e constante da modernidade. “Nem entendo do que se trata. Esses meninos nem olham mais no olho da gente quando conversamos, é telefone na mão o dia inteiro. Tenho medo de acabar o diálogo entre eles. Felizmente, ainda é de costume virem à pracinha para baterem papo nos finais de semana, coisa que não se vê com frequência na cidade”, afirma Clarice.

Rumo à aceitação existe um longo caminho a ser percorrido. A conscientização de conviver com as diferenças é um processo muito lento, além de ser fundamental para se viver em harmonia. O que dificulta e muito na demora deste processo vem por parte dos moradores mais velhos, pelo fato da cultura já estar enraizada no local e, enquanto a maioria pensar que estas atitudes dos jovens de se mostrarem diferentes são erradas, nada mudará. Felizmente ou infelizmente os tempos estão mudando e é necessário que estejam prontos para o que ainda está por vir.

 

Reportagem produzida pelo aluno do curso de Jornalismo da Faculdade Pitágoras Divinópolis/MG: Victor Guilherme Silva (3º Período)
Fotos: Arquivo pessoal
Edição e Supervisão: Professor Ricardo Nogueira (MG 11.295 JP)

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