Novos amores antigos - Colecionadores e admiradores mantêm aquecido mercado de carros clássicos

16/07/2012 08:41

 

Os carros, muitas vezes, tornam-se paixões e objetos de desejo de muitas pessoas, sejam homens ou mulheres. Eles também atraem a atenção de praticamente todas as idades, como as crianças, com seus carrinhos de brinquedo, passando pelos jovens e até idosos. Todas estas pessoas adoram carros, de variadas marcas e modelos. Muitas delas, no entanto, nunca viram um carro antigo clássico andando normalmente e sem problemas pelas ruas, pois são poucos modelos com mais de 30 anos de fabricação que estão em bom estado. Os que existem, na maioria, são de colecionadores, que os mantêm dentro de casa com todos os cuidados, especialmente se o carro for considerado uma “relíquia” e estiver com todas as peças originais.

O amor por carros antigos pode nascer de muitas formas. Seja por alguma influência familiar, curiosidade pela história que cada um traz ou simplesmente por achar bonito. Lucas Alexandre Santos, 12 anos, por exemplo, tem uma pequena coleção de miniaturas de carros antigos, com 11 miniaturas de diferentes modelos. Ele pretende aumentá-la muito ainda e conta que seu interesse por carros antigos é bem recente. “Desde o início do ano tenho juntado revistas que falam sobre esses carros. Depois que saiu essa promoção de juntar os selos para trocá-los pelos carrinhos, resolvi comprar para aumentar a minha coleção com os carrinhos que eu já tinha em casa”, explica.


A paixão pelos automóveis não tem idade e, em muitos casos, começa ainda na infância, como no caso de Lucas Santos, com sua coleção de miniaturas
Crédito: Elisa Correa

Todo carro antigo tem uma história. Pode ser pelo motivo que foi feito, por onde ele já passou, entre muitas outras coisas. O carro mais vendido da história é o famoso Fusca da Volkswagen, que ultrapassou em 1972 o então recorde do Ford modelo T. Feito inicialmente a pedido de Hitler, para ser utilizado na Segunda Guerra Mundial, foi projetado para acomodar três homens e uma metralhadora. Em mais de 60 anos de vida, o Fusca já passou por inúmeras alterações. Mas sempre manteve o mesmo visual.

A cada ano novos modelos de carros surgem no mercado, com tecnologia de ponta e design arrojado, para atrair cada vez mais o consumidor. No entanto, para algumas pessoas nada substitui a beleza e o charme dos antigos. Não é tão comum ver jovens que acabaram de tirar a carteira de motorista optar por carros antigos ao invés daquele que foi lançado na semana passada. Mas este é o caso de Henrique Teixeira, de 19 anos e Diogo, de 24 anos. Desde criança eles tiveram contato com o “vício da ferrugem”, como o próprio Diogo define a esta paixão. Os dois se conhecem desde o ano passado e um dos motivos da amizade continuar é a comum paixão por carros antigos.


O antigomodelista Henrique Teixeira afirma que, apesar do trabalho, vale a pena investir em um modelo antigo, como no caso de sua Kombi “Dolores” 
Crédito: Henrique Teixeira (Arquivo pessoal)

Ambos já têm seus carros. Henrique possui uma Kombi há 4 meses e Diogo possui uma Rural há 5 anos. Diogo conta que na época em que comprou seu carro, ele custou R$ 4.100, inclusive comprou ele sem motor. Apesar do custo para obter um carro antigo ser bem menor em relação a um modelo novo, muitos deles têm peças faltando ou estão em péssimo estado de conservação. “Peguei o carro ciente que era dor de cabeça. Mas para quem gosta mesmo como eu e o Henrique na realidade não chega a ser um problema”, conta o dono da Rural.

Já Henrique conta que quando comprou sua Kombi, no início de 2012, teve que gastar todo o seu salário. “Durante um mês não sai de casa. Não tinha o dinheiro nem para abastecer a Dolores (este é o nome dado por Henrique a sua Kombi). Apesar de já ter gastado mais de R$ 3 mil para fazer manutenção e equipá-la, hoje em dia não me arrependo. Você fala mal, se irrita quando o carro estraga, mas a primeira vez que você liga o motor do carro que você mesmo montou e não mandou em nenhum mecânico é bom demais! A satisfação desse momento vale toda a dor de cabeça do início”, relata.

A manutenção para esses carros não é algo que sai barato para o bolso do dono. A falta de mecânicos especializados e as peças que podem ser complicadas de encontrar, dependendo do modelo e marca, são dificuldades que todo admirador de carros antigos enfrenta. Rivalidade

No Brasil, quando se fala em rivalidade logo vem à cabeça a palavra futebol. No mundo das “relíquias” não é diferente. A rivalidade entre clubes de carros antigos e até mesmo entre as marcas dos carros é bem comum. Normalmente, os mais apaixonados são aqueles que têm ou gostam de Opalas e Dodges. Para entrar no Clube de Carros Antigos de Itaúna, Diogo conta que foi em um dos encontros e comprou a camisa e a placa de identificação para colocar na sua Rural. “Todo último domingo do mês é marcado um encontro aqui em Itaúna. E quando tem encontrão em outra cidade, todos se reúnem e vão com a camisa representando a cidade”, conta.


Cresce o número de colecionadores de carros antigos e as entidades associadas à FBVA se fortalecem, como o Clube de Carros Antigos de Itaúna
Crédito: Henrique Teixeira (Arquivo pessoal)

Às vezes, escutar risadas e ofensas por parte de outras pessoas na rua pelo fato dos carros serem antigos acaba acontecendo. Entre amigos, a experiência pode ser outra. “Não contei para ninguém que ia comprar meu carro. Quando meus amigos viram, acharam engraçado, mas ninguém me criticou. Todos sabem que é algo que eu gosto há muito tempo. Se uma menina não quiser entrar no meu carro pelo fato dele ser velho, pra mim já não serve. Esse já é o primeiro teste”, diz Teixeira.

No âmbito nacional, os antigomobilistas são representados pela FBVA (Federação Brasileira de Veículos Antigos). Há 25 anos a entidade realiza um intenso trabalho em defesa do automóvel antigo e para os seus admiradores. Quando se fala em carros antigos, a FBVA é autoridade máxima no assunto. Graças à persistência e dedicação de seus membros, já acumulam grandes conquistas como o Calendário Anual e a Placa Preta.

A cada ano mais clubes se associam à FBVA. As principais atividades da Federação são coordenar os clubes; ter representatividade junto às autoridades federais, estaduais e municipais, para colaborar em tudo que for referente ao automóvel antigo; proporcionar proteção para as atividades do setor de uma maneira legal; orientar pessoas para a formação de novos clubes; coordenar o calendário nacional, entre outras.

Para os mineiros é fácil conhecer a Federação, pois a sede da entidade fica em Juiz de Fora, no Car Center, em uma loja de um shopping de automóveis, logo na entrada da cidade. Conhecer a historia de como tudo começou é uma boa maneira de começar uma coleção ou simplesmente adquirir mais conhecimento.

Placa Preta

Antes de almejar a tão sonhada Placa Preta, a primeira coisa que o colecionador deve fazer é tornar-se sócio de um clube de carros antigos afiliado à FBVA. Depois disso o proprietário deve se dirigir ao diretor do clube e solicitar o formulário da Placa Preta, cumprindo todas as exigências da Federação. O último passo é agendar uma vistoria do Detran. Neste passo são checados itens básicos do carro, como luzes, limpadores e buzinas. Depois da checagem é necessário deixar toda a documentação do veículo no posto do Detran, pois ela será substituída por uma onde constará o enunciado “Veículo de Coleção”.

Após esses procedimentos, o Detran entra em contato com o colecionador para efetuar a troca da placa e fazer a entrega de todos os documentos. Este processo leva cerca de 60 dias, pois existem várias etapas a serem cumpridas. A vistoria do veículo é feita por três membros do clube, definidos pela diretoria, que seguem rigorosamente uma planilha de pontuação adotada pela FBVA.

Qualquer veículo pode ter a Placa Preta, desde que tenha mais de 30 anos de fabricação e mantenha as características definidas pela Federação. Alguns itens impedem a concessão do certificado de originalidade, como alterações nas características principais do automóvel. Qualquer alteração visível à sua originalidade, como motor, rodas, cor diferente da época de fabricação, carros tunados, customizados, entre outros, impedem a concessão.

Apesar de todo esse trabalho, há uma série de vantagens em obter a Placa Preta. Uma delas é a dispensa do uso de equipamentos obrigatórios homologados posteriormente à fabricação do veículo. Ou seja, o veículo deverá manter apenas os obrigatórios originais do veículo e possui livre trânsito em todo o território nacional. Além disso, seu valor comercial automaticamente aumenta pelo fato de ser considerado veiculo de coleção.

Porém, um veículo antigo, por mais perfeito que esteja ou que tenha sido feita sua restauração, nem sempre reunirá todas as condições de segurança necessárias à circulação nas vias públicas das cidades ou em rodovias. O proprietário deve ter isso em mente para não gerar possíveis acidentes para si e para os demais.

Os carros de Placa Preta são cercados por alguns mitos. Um deles é que o veiculo pode rodar sem respeitar rodízios. Engana-se quem acredita nisto. Todo veiculo, sendo de coleção ou não, tem que respeitar as leis de trânsito em vigor e, no caso dos de Placa Preta, também levam multa.

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Reportagem produzida pela aluna do curso de Jornalismo da Faculdade Pitágoras Divinópolis/MG: Elisa Correa (3º Período)
Fotos: Elisa Correa e Henrique Teixeira
Edição e Supervisão: Professor Ricardo Nogueira (MG 11.295 JP)

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