Na pegada do funk

13/09/2012 15:06

Um retrato do estilo na noite divinopolitana

“Joga a bundinha e empina. Senta e se arrebenta. Soco pra valer. Engano. Te traio fudendo. Penetração”. Assim começava mais um baile funk na noite divinopolitana. Não foi difícil identificar o figurino usado para dançar essa música. Enquanto os homens abusavam de acessórios como correntes no pescoço e bonés, as mulheres vestiam saia, short ou vestido. Qualquer um era válido, desde que fosse muito curto. Salto alto e blusas com decotes completavam o visual. Mas a justificativa para tais roupas não era a música. “A gente vem assim pra mostrar que tem peito e bunda. Mostrar o corpo. Aqui dentro é uma competição. Você acha que um homem vai olhar para uma mulher com vestido curto ou calça jeans?”, pergunta Geize Rodrigues, frequentadora de bailes funks. Para Fabiano Vany, a primeira opção é a sua preferida. “Escolho uma garota por causa da roupa. As chances de eu ter uma transa (sic) com uma menina que usa short curto é maior do que se ela estivesse usando outro tipo de roupa”, diz.

A paquera no baile funk vai além de observar a aparência ou o modo de se vestir. O comportamento feminino é critério de desempate para os homens. Por causa disso, movimentos que remetem a relações sexuais durante a dança são os mais vistos entre os casais ou até mesmo em grupos de três ou mais pessoas. Também é comum ver homens tocando as partes íntimas da mulher ou vice-versa. Para facilitar essa atitude algumas vão ao baile sem calcinha. Basta olhar para o camarote onde diversas mulheres de vestido rebolam e se agacham para mostrar que realmente estão sem a peça.

Todo esse cenário é o que faz Fabiano frequentar o funk. “A vulgaridade atrai qualquer um. Aqui acontece o funk proibido, o que você não vê na rua”, conta. O jovem de 24 anos afirma que “namoraria uma garota que frequenta o baile sim. Isso não é problema, afinal estou na mesma situação.” Mas esse não é o tipo de namoro que Bruce Willian, de 22 anos, procura. “Elas são safadas demais. Vão sempre querer vir ao baile e fazer o mesmo que faziam antes”, relata. Geize possui a mesma opinião: para ela, as mulheres também não dão valor ao homem que frequenta essa balada. “Para os homens, mulher é só ‘peguete’. Se ele está aqui só pra curtir, eu também estou. A gente os julga da mesma forma”, confessa.

No funk proibido também é normal encontrar frequentadores utilizando drogas nos banheiros ou cantos das casas noturnas. O uso não acontece somente em eventos como esse, mas, de acordo com o soldado Marcus, da Polícia Militar, a fiscalização nesses locais deve ser redobrada. “Infelizmente quando acontece festa de funk a apreensão de drogas é maior”, diz. Ainda de acordo com o policial, a ação da polícia pode acontecer somente fora desses locais. “Não podemos fazer essa fiscalização no interior das casas. Por ser um ambiente particular, os proprietários contratam seguranças. Caso haja necessidade de uma intervenção policial dentro do local, somos acionados para solucionar. Também é de nossa responsabilidade qualquer pessoa que é expulsa da festa por algum motivo. A partir do momento em que ela está na rua, tomamos as medidas cabíveis,” explica.


Roupas curtas e partes do corpo à mostra “dão status” e fazem parte do visual preferido pelos frequentadores dos bailes funk

“Que isso novinha? Que isso?”

Batidão é o nome dado a qualquer baile funk que aconteça longe dos centros urbanos. Em Divinópolis, estas festas ocorrem em sítios. Por serem afastados, facilitam que os frequentadores levem bebidas, drogas e armas, já que não existe fiscalização no local. O risco de denúncia é raro, já que não há vizinhos. Foi em um desses batidões que a estudante Ana Carolina foi vítima de uma bala perdida. Durante a festa, iniciou-se um tiroteio no sítio em que ela estava. O tiro atingiu sua perna e feriu a amiga com quem estava. “Percebi que tinha levado o tiro somente quando tive dificuldade para andar. Levei um susto e fiquei apavorada. Não sabia o que fazer”, conta a garota.

Sandra Sousa, mãe da jovem, conta que só descobriu o que aconteceu quando tentou ligar para Ana. “Quando deu o horário dela chegar em casa, ela não apareceu. Fiquei preocupada e liguei. Quem atendeu foi meu outro filho, que estava com ela. Descobri então que eles já estavam no Pronto-Socorro”, relata a mãe. Depois que a filha levou o tiro, Sandra só a deixa sair para esses lugares com os irmãos. E a jovem trocou os batidões por festas em casas noturnas. “Prefiro ir para festas em locais fechados. É melhor. Funk para mim é só dançar, nada mais que isso”, afirma Ana, que mesmo com o acidente ainda se assume como “funkeira” de paixão.

Fora da lei?

A maioria das músicas do atual funk nacional possui letras ligadas ao sexo, que denigrem a figura feminina ou até mesmo falam da promiscuidade. No atual Código Penal Brasileiro existe um conjunto de artigos abordando crimes que envolvem o pudor público: ato obsceno, palavras obscenas, dentre outros. Mas tais músicas não podem ser julgadas por essa lei, segundo o delegado e professor de Direito, Domingos Sávio Calixto. “Para que se pratique esse crime tem que haver não só o ato em si. Tem que ter um elemento subjetivo, que é exatamente querer agredir um bem jurídico. Esses bailes funks, em princípio, não têm esse contexto,” afirma.

Já o Estatuto da Criança e do Adolescente proíbe menores de 18 anos de frequentarem casas noturnas, shows, danceterias ou locais do gênero. Para garantir o cumprimento da lei, o Hangar Music Bar, casa de show divinopolitana, contrata em média 18 seguranças para cada dia de show. “Toda nossa segurança é terceirizada. Para comprovar a idade pedimos documento de identidade com foto. Na entrada, mulheres revistam mulheres e homens revistam os homens para garantir maior segurança,” afirma Aquiles Alves, diretor do Hangar. Em contato com a boate Lux Lounge, informações sobre a segurança feita na portaria do local foram negadas à reportagem com a justificativa de “garantir a segurança da casa noturna”.


Cena comum nos “batidões”, grupos de três ou mais pessoas dançam esfregando seus corpos nos outros, numa clara referência à sexualidade

Manifestação cultural

Hoje o funk não é visto somente como um estilo que abusa da erotização, mas também como uma manifestação da sociedade. “É muito mais um pensamento ideológico. As pessoas que cantam ou dançam funk estão dizendo ao Estado que podem produzir sua própria cultura. Portanto, já houve tentativas de criminalizar o baile funk que não foram aprovadas,” relata o delegado Calixto. Ainda de acordo com ele, o gênero ganhou força social. “Em termos de ideologia de massa e de manifestação de cultura, é um dos movimentos mais importantes dos últimos anos”, opina.

Já Raika Bueno, psicóloga e professora, alerta sobre o sentido que as mulheres dão a esse tipo de manifestação. “Está havendo uma confusão entre liberdade e ascensão social feminina. No momento em que a mulher se projeta em cima do sexo, ela quer passar que é dona de si mesma, que pode fazer o que quiser. Mas ela perde também a questão do próprio valor, com quem ela quer compartilhar o corpo e o próprio prazer”, comenta.

Domingos Sávio Calixto também pondera sobre a visão que a elite tem sobre o funk, dizendo que “ela acha que os de renda baixa não têm direito a uma pluralidade de cultura”. Para ele, tudo isso é uma questão de preconceito social. “A classe alta vai ao teatro e fica aplaudindo a nudez nos palcos. Essa nudez elitizada não incomoda ninguém, mas se a classe baixa faz o mesmo é criticada,” diz. Raika discorda desse pensamento. “A nudez teatral está inserida em um contexto que visa refletir valores que a sociedade evita ou não comenta. Já a nudez no funk é apenas corpo por corpo. É gratuita, sem nenhum intuito,” afirma. Cada um que tire suas próprias conclusões.

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*Matéria publicada originalmente no Jornal Ensaio Pitágoras, jornal-laboratório da Faculdade Pitagoras Divinópolis/MG, ano I, edição 01

Reportagem produzida pelos alunos do curso de Jornalismo da Faculdade Pitágoras Divinópolis/MG: Fernanda Nunes, Gustavo Costa e Maysa Ribeiro (4º Período)

Fotos: Gustavo Costa e Maysa Ribeiro (4º Período)

Edição e Supervisão: Professor Ricardo Nogueira (MG 11.295 JP) 

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