Ida e volta de acordo com o bolso

27/09/2012 16:48

A pé, de carro ou de ônibus, cidadãos se ajeitam para cumprir obrigações diárias e conquistar objetivos

Divinópolis possui cerca de 210 mil habitantes, a maioria composta por adultos e adolescentes, segundo o IBGE. De segunda a sexta-feira quase toda a população precisa sair para trabalhar e estudar, entre outras atividades. Para isso, cada um escolhe o meio de locomoção que melhor se encaixa ao seu contexto. Seja de ônibus coletivo, carro, bicicleta ou a pé, para se chegar ao destino cada um enfrenta uma realidade diferente. O jeito é se adequar à correria para cumprir as tarefas e alcançar os objetivos diários.

A caminho do trabalho

Nixon Lopes tem 40 anos e é morador do bairro São Judas Tadeu. Para chegar até o local de trabalho, uma corretora de seguros na Av. Antônio Olímpio de Morais, no Centro da cidade, acorda às 5h todos os dias para tomar banho e realizar as suas atividades com calma. Entre ida e volta, sua caminhada totaliza 11 km por dia. Ele possui automóvel, mas fez a opção de caminhar para ir ao trabalho. Nixon Lopes alega que a caminhada faz muito bem à sua saúde, ajuda a controlar o colesterol, manter a boa forma e a não cair no sedentarismo.

“O aquecimento global está aí, as pessoas foram avisadas durante anos pelos cientistas e não deram relevância. Hoje sofrem as consequências com este intenso calor, que de início parece ser irreversível. Os hospitais estão cheios de pessoas doentes, desidratadas e fazendo tratamentos de câncer de pele”, diz Nixon. Nem nos finais de semana ele tem o hábito de usar o carro para sair. Costuma ir ao supermercado a pé, juntamente com suas duas sobrinhas, para fazer compras e passear.

Já Matheus Vaz, 27 anos, é um jovem empresário de Divinópolis, graduado em Direito. Desde jovem, trabalha na empresa de seu pai, auxiliando e administrando os negócios. É de classe média alta, possui um Jipe Hilux SRV e

uma moto esportiva. “Eu nunca mais andei a pé desde que completei meus 18 anos de idade e tirei minha carteira de habilitação”, conta Matheus. O empresário reside no Bom Pastor e fica a apenas 2,5 km do seu local de trabalho, no Centro da cidade. Ele diz ainda que “malha” em uma academia que fica bem próxima à sua residência e não consegue ir a pé, pois já se acostumou com a comodidade e praticidade que os veículos proporcionam a ele.

Durante todo o dia Matheus faz visitas a clientes e entrega de documentação, além de desenvolver outras atividades. “Em minha residência não somente eu, mas minha irmã e meus pais são motorizados. Cada um tem seu veículo e ninguém anda a pé. Ressalto que Divinópolis é uma cidade grande e que está crescendo a cada dia, fator que dificulta muito para que possamos andar a pé,” afirma.

O jovem empresário não vive apenas no “sedentarismo”. Ele afirma que anda de bicicleta junto com os amigos e neste trajeto percorre vários bairros de Divinópolis, totalizando 25 km de pedaladas diárias. “Com as coisas do meu trabalho eu realmente não abro mão dos meios motorizados, pois são práticos e velozes. Mas quanto à minha saúde eu não brinco, faço pedaladas diárias para compensar o tempo que ando de carro”, alega Matheus.

A caminho da escola

João Henrique de Freitas, 28 anos, percorre seis quilômetros todos os dias para levar sua filha, Giovana, de dois anos, até a escola. Ele faz todo o trajeto de carro. Sua casa fica no bairro Jusa Fonseca e a escola fica no bairro Belo Vista, do outro lado da cidade. Após deixar Giovana na escola ele ainda precisa percorrer mais oito quilômetros para chegar até o trabalho, no bairro São João de Deus.

Para conseguir cumprir essa rotina João acorda às 6h, sai de casa às 6h20, chega à escola às 6h40 e inicia seu trabalho às 7h. E a correria não termina por aí. Após dez horas de trabalho, João Henrique retorna à sua casa somente por volta de 19h30, após buscar Giovana na escola e sua esposa Sirlaine em seu trabalho no Centro da cidade.

Há dois anos a família encara essa rotina. João Henrique reclama da falta de tempo e do cansaço. Ele ainda tem um custo médio de R$ 200 por mês apenas com o transporte. Apesar disso, ele não pensa em mudar sua filha de escola, pois disse confiar na instituição que Giovana frequenta desde os quatro meses de idade. Quando questionado sobre a possibilidade de usar um transporte alternativo, respondeu: “Van não compensa por causa do preço, e também pela falta de segurança”.

Por sua vez, Adriana Silva, 41 anos, é mãe de duas crianças: Mariana, três anos e Julia, dois anos. De segunda a sexta-feira, segue a rotina de deixar as crianças na escola e ainda chegar a tempo no local de trabalho. Acorda às 5h30 e sai de sua casa, que fica no bairro Manoel Valinhas, próxima a Faculdade Pitágoras, às 6h30. Ela utiliza o transporte coletivo até o bairro Danilo Passos I, onde fica a creche municipal, que inicia suas atividades às 7h. Após deixar sua filha Mariana, segue novamente pelo mesmo meio de transporte até o bairro Bom Pastor, na creche onde Julia fica em horário integral. Logo após, caminha até o seu local de trabalho, que fica próximo à última creche. Ela inicia suas atividades às 8h. Às 11h inicia o seu horário de almoço, na própria empresa. Às 11h30 caminha até o bairro Danilo Passos I e busca Mariana.

Para retornar ao seu local de trabalho no horário certo, faz uso do transporte coletivo até a outra creche do bairro Bom Pastor, onde fica Julia, para deixar Mariana no período da tarde. Retorna ao trabalho caminhando, chegando ao local 12h. No término de suas atividades, às 18h15, caminha até a creche para buscar suas filhas e mais uma vez utiliza o ônibus para retornar a sua residência.

Adriana não possui um veiculo próprio e o horário de trabalho do seu esposo não condiz com o horário de funcionamento da creche, o que dificulta a sua rotina. A creche em que Mariana fica no período matutino é municipal e abriga

crianças apenas por meio período. Já a do bairro Bom Pastor é particular e funciona em período integral. A maior dificuldade de Adriana é a de não poder deixar as duas filhas na mesma creche, e mais difícil ainda é mantê-las uma escola particular. Se houvesse vagas em alguma creche municipal mais próxima de sua casa ou do seu local de trabalho, seria a melhor solução. Ela considera o meio de transporte coletivo muito bom, por atender as suas necessidades. Mas acha cansativo o tempo gasto no trajeto.

A caminho de um sonho

Maria Geralda Ferreira, 37 anos, moradora do bairro Sidil, de segunda a sexta-feira percorre cerca de 10 km a pé para estudar. Ela sai de casa às 18h e segue para a escola localizada no bairro Oliveiras. As aulas começam às 19h. Para chegar a tempo ela precisa ser rápida. Após o término das aulas, às 22h, vai embora em companhia de sua amiga Sandra, que mora no bairro Bom Pastor. Dali ela segue sozinha e chega a sua casa, aproximadamente, às 23h. Ela faz esse trajeto há um ano e dois meses, desde que se divorciou. Antes ela morava em um bairro próximo à escola, mas também ia a pé.

Geralda faz todo o trajeto a pé por falta de condições financeiras, pois disse ficar muito caro usar o transporte coletivo, já que teria que tomar dois ônibus por não haver uma linha compatível com seu trajeto. Ela trabalha somente aos finais de semana, pois, de segunda a sexta-feira, precisa cuidar de sua, mãe que tem problemas de saúde. Assim, o dinheiro que recebe não é suficiente para suprir os seus gastos com transporte. “Só pego ônibus quando estou muito cansada”, afirma. Ela disse conhecer os riscos de sua rotina, mas não quer deixar a escola agora, já que no próximo ano se forma.

Após 22 anos longe da escola, em 2008 Geralda decidiu voltar a estudar. Ela faz parte de um projeto de ensino para adultos (EJA). Na escola encontrou amizades e incentivo para lutar por seu sonho, que é cursar Medicina Veterinária. Tanto sacrifício já vem lhe surtido bons frutos. Em 2011 ela teve o melhor desempenho de sua escola nas Olimpíadas de Português, com uma

redação sobre “Meio Ambiente e a reciclagem”. Após concluir o Eja, Geralda pretende tentar uma bolsa de estudos pelo ENEM, para realizar o seu sonho.

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Reportagem produzida pelos alunos do curso de Jornalismo da Faculdade Pitágoras Divinópolis/MG: Amanda Silva, Felipe Silvestre e Mariana Moreira (3º Período)

Fotos: Felipe Silvestre e Mariana Moreira (3º Período)

Edição e Supervisão: Professor Ricardo Nogueira (MG 11.295 JP)

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