Campo sobrevive na selva de concreto

14/11/2012 14:00

Apesar da intensa urbanização, muitos trabalhadores de Divinópolis ainda tiram o sustento do campo

 

Divinópolis, considerada a principal cidade do Centro-Oeste mineiro, possui várias empresas e indústrias onde trabalham milhares de divinopolitanos. Porém, além das características de cidade grande, Divinópolis também tem vários trabalhadores que dedicam suas vidas ao campo. Embora seja desconhecida por muitos habitantes da cidade, a atividade rural tem se tornado cada vez mais forte e é responsável por uma parte significativa da economia da cidade.

Mesmo dentro da cidade, os trabalhadores rurais de Divinópolis são estimulados a trabalhar no campo. Além do lado financeiro, a vida rural proporciona outras vantagens. Dentre elas, a qualidade de vida é a principal característica apontada pelos trabalhadores que todos os dias cuidam de animais, tiram o alimento da terra e, assim, trabalham diretamente com o contato com a natureza.

A rotina da vida no campo, embora não pareça, exige muito esforço físico e sensibilidade do trabalhador. É um trabalho árduo e rotineiro. O trabalhador rural lida com seres vivos e deve estar sempre dedicado a essa função. Isso é o que conta o caseiro Geraldo Magela. Trabalhador há dois anos em um haras da cidade, Geraldo conta que trabalhou a vida toda no campo e que desde novo trabalha com animais. No haras ele conta como é o seu dia. “Levanto às seis horas e dou ração aos animais. Às sete eu passo o capim e, quando dá, ao meio dia eu rapo as baias, corto capim e puxo. Às três horas da tarde eu dou ração aos animais, trato de novo, ponho agua, ponho capim, e às cinco horas eu limpo as baias e os bebedouros. Isso tem de ser de segunda a segunda”, conta.

No haras onde Geraldo trabalha há 22 animais, dentre cavalos e cabeças de gado. O trabalho no campo, segundo Geraldo, é um ofício nobre e de que o caseiro não abre mão. “Eu vivi a minha vida toda na roça. Eu trabalhava na roça, tirando leite, e a minha vida toda foi essa. Mas vim pra cidade agora, e voltei a trabalhar no campo, mesmo dentro da cidade. Já estou aqui há dois anos”, afirma o caseiro.

Para Geraldo, o trabalho no campo, além de oferecer qualidade de vida por proporcionar um contato maior com a natureza, tem nas funções desempenhadas uma grande importância para os moradores da cidade. “Eu gosto é de trabalhar no campo, gosto de ficar no meio da criação. Aqui nós temos galinhas, cavalos, gansos, perus, patos. O nosso trabalho é importante porque na cidade chega tudo prontinho, na caixa, mas o trabalho começa aqui, o trabalho vai da roça pra cidade”, conta.

O caseiro ainda ressalta que acha “que a vida no campo é isso. É mais saúde, mais tranquilidade, sossego para as pessoas. Aqui a gente tem uma vida mais tranquila. Mas na cidade não. As pessoas levam uma vida corrida, tem muito movimento, tem pessoas boas e pessoas ruins, e aí você fica com a cabeça cheia. Mas no campo não, a gente mexe com a criação e é tranquilo. Espero ficar muito tempo aqui ainda, se Deus quiser”.

Economia pujante

A vida no campo vai bem além de um bom leite com café pela manhã. A agricultura é um importante setor da economia divinopolitana, principalmente no caso da agricultura familiar. Paulo Márius, veterinário e ex-secretário de Agronegócio de Divinópolis, fala sobre o setor e da importância do apoio governamental. “A gente ajuda a agricultura familiar e, com isso, mantém o homem no campo, evitando o êxodo rural, melhorando as estradas, melhorando essa estrutura para que o produto possa chegar melhor e mais rápido. Assim a gente evita que o produto vá para o CEASA e volte pra cá. Com isso está chegando comida mais fresca, verduras mais frescas para a merenda escolar, para as crianças e para a população também. E o preço também é melhor, porque essa parceria faz com que o preço seja melhor”, explica.

Segundo o veterinário, para evitar desperdício há uma estimava de que quase 30% das verduras de supermercados e sacolões são perdidos, perdendo também o valor comercial. Uma ideia para evitar essa perda é a criação de um banco de alimentos, um local que receberia toda essa verdura doada pelos supermercados e varejões para que elas sejam processadas, higienizadas, embaladas e entregues para entidades carentes. Desta forma, a expectativa é economizar e tentar baixar de 30% de perda de alimentos para 5% apenas, gerando mais segurança alimentar.

Para impulsionar ainda mais o setor, existem dois programas públicos de aquisição de alimentos, o PNAE e o PAA. Paulo explica que esses programas são “convênios federais com o Ministério de Desenvolvimento Social e Combate a Fome. Em Divinópolis atendemos 300 agricultores e mais de sete mil pessoas são atendidas em 55 entidades onde são entregues, toda terça-feira, essas horti-frut, verduras, ovos, frutas, queijos, doces. São quase 600 toneladas beneficiados e adquiridos que são doados para entidades carentes”, diz.

O PNAE é o Programa Nacional de Alimentação Escolar. Segundo a Lei Federal 11.947, no mínimo 30 % da merenda escolar tem que ser adquirida da agricultura familiar. De acordo com o veterinário, atualmente 43 % da merenda escolar de Divinópolis é adquirida da agricultura familiar e cerca de 17 mil crianças consomem esses produtos. Para auxiliar estes contratos entre o setor público e os produtores, a cidade conta com uma associação, a Aprafade (Associação da Agricultura Familiar), fundada em 2007, com 140 produtores cadastrados. Paulo conta que o que é produzido atende não somente Divinópolis, mas também outras cidades da região. “Nós temos recebido das escolas de fora daqui pedidos para que sejam entregues, então temos entregado para algumas”, conta.

Por sua vez, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), segundo o site do Ministério de Desenvolvimento Social, é uma das ações do Fome Zero e promove o acesso a alimentos às populações em situação de insegurança alimentar, além de promove ra inclusão social e econômica no campo por meio do fortalecimento da agricultura familiar. O PAA também contribui para a formação de estoques estratégicos e para o abastecimento de mercado institucional de alimentos, que compreende as compras governamentais de gêneros alimentícios para fins diversos, e ainda permite aos agricultores familiares que estoquem seus produtos para serem comercializados a preços mais justos. O Programa propicia a aquisição de alimentos de agricultores familiares, com isenção de licitação, a preços compatíveis aos praticados nos mercados regionais. Os produtos são destinados a ações de alimentação empreendidas por entidades da rede socioassistencial; Equipamentos Públicos de Alimentação e Nutrição como Restaurantes Populares, Cozinhas Comunitárias e Bancos de Alimentos e para famílias em situação de vulnerabilidade social. Além disso, esses alimentos também contribuem para a formação de cestas de alimentos distribuídas a grupos populacionais específicos. Instituído pelo artigo 19 da Lei 10.696/2003, o PAA é desenvolvido com recursos dos Ministérios doDesenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) e do Desenvolvimento Agrário (MDA). As diretrizes do PAA são definidas por um Grupo Gestor coordenado pelo MDS e composto por mais cinco Ministérios.

Hobby ou investimento?

O campo hoje está sendo alvo de pessoas que querem transformar seus hobbies em empreendimento. Cuidar de animais, atuar em competições e trabalhar no campo tem se tornado uma atividade rentável e, consequentemente, alvo de investimento. O estudante Ricardo Lima, de 21 anos, conta que a atividade começou com sua paixão pelos animais. “Eu vou todo dia para o campo porque além de ser um lugar onde encontro tranquilidade, também faz parte dos meus negócios agora. Trabalho com competições de marcha e reprodução da raça manga-larga. Sou criador desde os doze anos de idade e comecei a encarar o hobby como trabalho há cerca de um ano”, afirma.

A atividade pode até ser rentável, mas no início gera muitos gastos. “A princípio não é uma atividade rentável, a gente tem só gastos, e muitos gastos. Mas depois de uma certa experiência dá para ter os lucros com esse tipo de trabalho”, conta o estudante.

Ricardo ainda ressalta o apoio do Sindicato Rural para o crescimento da atividade. “De dois anos para cá, com o apoio do Sindicato Rural, essa atividade cresceu bastante aqui na cidade. Isso também se deve a esse apoio. O pessoal não tinha conhecimento do beneficio que o cavalo pode trazer, principalmente os pequenos produtores. Com esse incentivo, com cursos, palestras e as tradicionais cavalgadas com seus concursos de marcha, isso cresceu muito”, conta.

Com o crescimento da atividade, Ricardo conta que planeja aumentar os negócios e trabalhar somente na área. “No futuro bem próximo, pretendo mexer só com isso. Eu e um sócio estamos implantando a criação de mais um haras aqui na região. Aí vou ficar só no campo, trabalhando com criação de gado de corte, de leite. Vamos ver no que vai dar, espero que consiga”, deseja.

____________________________

Reportagem produzida pelos alunos do curso de Jornalismo da Faculdade Pitágoras Divinópolis/MG: Ânderson Henrique, Felipe Silvestre, Marina Alves e Vélber Viana (3º Período)

Fotos: Marina Alves (3º Período)

Supervisão e edição: Prof. Ricardo Nogueira (MG 11.295 JP)

Voltar